Porto–Lisboa... Regresso impossível?


Mais de 300 km de prova, um símbolo do ciclismo português, a mais dura corrida existente a nível nacional... assim era a clássica Porto–Lisboa. Por 74 vezes a prova foi vivida (e sofrida) pelos heróis do asfalto. Quem a viveu não esquece a experiência de pedalar meio país num só dia repleto de grande significado... 10 de Junho, o Dia de Portugal.

E se a prova voltasse? Talvez a pergunta correcta não seja essa. Que pelotão estaria disposto a correr uma clássica tão longa como Porto–Lisboa e que patrocinadores estariam dispostos a apoiá-la? Analisemos a questão por partes.

Actualmente, o pelotão nacional não tem um calendário tão preenchido como há uns anos atrás. Por mais que a esperança renasça a cada início de temporada, à medida que os meses vão passando, corridas vão sendo canceladas e os ciclistas vão ficando com menos quilómetros nas pernas, ou seja, menos nível competitivo e consequentemente menor capacidade para disputar provas de maior dureza. Até que ponto estão preparados para viver uma prova desta natureza? É difícil dar uma resposta concreta a esta questão, mas olhando às provas realizadas até ao momento, podemos imaginar que muito poucos corredores a terminariam.

Quanto aos patrocinadores, poderá ser uma loucura pensar que alguma empresa/marca tenha interesse em colocar na estrada uma corrida que acarreta custos e uma organização muito específicos. Olhando ao panorama nacional, o país está cada vez mais reduzido em número de empresas, mas se uma marca como por exemplo o Continente, que sempre apoia eventos de grande envergadura e com bastante êxito, se unisse ao ciclismo de forma mais representativa... quem sabe não seria uma via para preencher um pouco mais o calendário e atrair outras empresas para este desporto? Não é estranho a marca em si patrocinar eventos de cicloturismo e não provas profissionais? Não é difícil imaginar a repercussão que teria o espaço dado ao ciclismo neste ‘meio’, ajudando a divulgar provas e, muito provavelmente, a trazer mais público para a estrada, quem sabe também proporcionando mais espaço televisivo e na imprensa escrita. Em contrapartida, como é sabido o ciclismo é um desporto que passa à porta das pessoas, gratuito para o público, perto das gentes de cada vila, aldeia ou cidade. A marca que se associe a este desporto tem a garantia de chegar indubitavelmente a um possível consumidor. Tudo parece mais simples no papel, mas na prática será tão difícil cativar as marcas para este desporto? Falta força ou vontade? Esta é uma pergunta sincera, não irónica.

A questão de saber se Porto–Lisboa poderia regressar um dia, a resposta mais fácil é um simples não. Não, porque é muito longa. Não, porque o pelotão é pequeno e nem metade chegaria à meta. Não, porque seria necessária uma disponibilidade financeira que, neste momento, o ciclismo nacional não possui. Por outro lado, sim... Gostaríamos de voltar a ter nas estradas portuguesas provas míticas que marcaram gerações e gerações de ciclistas e de aficionados, sempre com a expectativa de saber quem seria o herói da mais dura clássica lusa.

O tempo mais veloz foi alcançado em 2000, 7h56m27s, pelo espanhol Melchor Mauri (Benfica), vencedor da Vuelta a España em 1991 com a Once. O dia mais longo viveu-se no remoto ano de 1911, a 1ª edição com o francês Charles George (Lusitano) a vencer após 17h48m34s. O último corredor a erguer os braços da vitória foi o luso Pedro Soeiro (Boavista) em 2004, ao fim de 8h22m44s. Algo que jamais se poderá voltar a viver é a chegada apoteótica ao velódromo de Alvalade. Por certo, inesquecível.

Palmarés
[Fonte UVP-FPC]
2004 Pedro Soeiro (Boavista) 08h22m44s
2003 Pedro Soeiro (Boavista) 08h38m56s
2002 Equipa Carvalhelhos-Boavista 20 pontos [disputada por equipas, em 3 sectores]
2001 Unai Yus (Cantanhede) 07h56m35s
2000 Melchor Mauri (Benfica) 07h56m27s [melhor tempo]
1999 Quintino Rodrigues (Benfica) 08h13m14s
1998 Atanas Petrov (Tavira) 08h00m33s
1997 Cândido Barbosa (Maia) 09h30m37s
1996 Cássio Freitas (Recer/Boavista) 08h10m58s
1995 Jorge Henriques (Bom Petisco/Tavira) 08h41m09s
1994 Paulo Ferreira (Sicasal/Acral) 08h59m39s
1993 Rui Bela (W52/Quintanilha) 09h06m47s
1992 Oleg Logvin (Philips/Feirense) 08h33m09s
1991 Paulo Pinto (Sicasal/Acral) 08h05m44s
1990 Joaquim Andrade (Sicasal/Acral) 09h10m02s
1989 Fernando Valente (Sicasal/Torr.) 09h14m15s
1988 José Xavier (Louletano/Vale do Lobo) 09h45m36s
1987 Américo Silva (Sporting) 09h39m36s
1986 Carlos Santos (Lousa/Trinaranjus/Akai) 08h38m52s
1985 Vítor Rodrigues (Bombarralense) 08h26m18s
1984 Alexandre Rua (FC Porto) 08h56m40s
1983 Marco Chagas (Mako Jeans) 08h55m39s
1982 Alexandre Ruas (Lousa) 03h14m12s [mais curta, terminou em Alcobaça]
1981 José Amaro (FC Porto) 08h44m47s
1980 Alexandre Rua (Coelima) 09h15m03s
1979 Manuel Gonçalves (Campinense) 09h45m27s
1978 José Luís Pacheco (Dra.Lusotex) 08h38m22s
1977 Flávio Henriques (Sangalhos) 08h40m08s
1976 Venceslau Fernandes (Sangalhos) 08h50m04s
1975 Fernando Vieira (Benfica) 08h51m00s
1974 Leonel Miranda (Sporting) 09h06m10s
1973 Fernando Mendes (Benfica) 09h22m07s
1972 Fernando Mendes (Benfica) 08h47m02s
1971 Fernando Mendes (Benfica) 09h36m07s
1970 Joaquim Leite (FC Porto) 09h49m20s
1969 Emiliano Dionísio (Sporting) 10h10m08s
1968 Eric Leman (Flândria) 09h52m29s
1967 A. Godefroot (Flândria) 10h05m59s
1966 Joaquim Leão (FC Porto) 09h30m29s
1965 José Pacheco (FC Porto) 09h17m55s
1964 Alcino Rodrigo (Benfica) 09h20m46s
1963 João Roque (Sporting) 09h43m01s
1962 António Batista (Sangalhos) 09h28m00s
1961 Azevedo Maia (FC Porto) 09h56m20s
1960 Pedro Polainas (Sporting) 09h47m23s
1959 Mário Sá (FC Porto) 10h25m10s
1958 Carlos Carvalho (FC Porto) 09h39m25s
1957 Sousa Santos (FC Porto) 10h17m08s
1956 Fernando Henrique Silva (Sangalhos) 10h24m48s
1954 Américo Raposo (Sporting) 10h54m00s
1953 Luciano Sá (FC Porto) 11h01m00s
1952 Luciano Sá (FC Porto) 11h03m17s
1951 Amândio Cardoso (FC Porto) 11h12m13s
1949 Fernando Moreira (FC Porto) 11h32m27s
1942 Eduardo Lopes (Iluminante) 10h25m12s
1941 Francisco Inácio (Sporting) 13h11m40s
1940 Alfredo Oliveira (Benfica) 10h44m06s
1939 Ildefonso Rodrigues (Sporting) 11h03m17s
1938 Filipe de Melo (Sporting) 11h45m55s
1937 José Brás (C. Ourique) 11h29m32s
1936 Alfredo Trindade (Sporting) 11h15m33s
1935 José Maria Nicolau (Benfica) 11h18m54s
1934 José Maria Nicolau (Benfica) 11h34m46s
1933 João Francisco (Belenenses) 11h42m25s
1932 José Maria Nicolau (Benfica) 15h07m10s
1928 João Francisco (C. Ourique) 15h08m00s
1927 João Francisco (C. Ourique) 15h42m21s
1926 Aníbal Carreto (Conimbricense) 15h31m00s
1925 Aníbal Carreto (Conimbricense) 15h42m00s
1924 J. P. Conceição (Bombarralense) 15h17m21s
1922 J. P. Conceição (Bombarralense) 15h31m10s
1918 Joaquim Dias Maia (Progresso) 16h40m00s
1912 Laranjeira Guerra (Sporting) 17h04m00s
1911 Charles George (Lusitano) 17h48m34s

2 comentários:

  1. E o recordista do tempo recorde com maior duração (14 anos), foi Eduardo Lopes...

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  2. Anónimo7/2/19

    Pedro Polainas ganhou o Porto-Lisboa em 1960 quando corria pelo FC Porto.

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