O que se passa no Tour

O Tour de France não é somente a prova mais importante do calendário mundial de ciclismo. É também aquela que nos habituou às maiores polémicas e episódios marcantes no decorrer das suas edições. A uma semana do final, a 104ª da Grande Boucle mantém em aberto o nome do vencedor, numa edição repleta de casos a marcar as duas primeiras semanas de competição.

 
Christopher Froome, 5ª etapa Tour de France (© ASO/Thomas Maheux)

À imagem do poderio demonstrado nos anos anteriores, a Sky não deixou por mãos alheias a luta pela geral e tomou de assalto a camisola amarela na primeira etapa com Geraint Thomas, vencedor do contra-relógio, passando para as mãos do companheiro Christopher Froome ao final do quinto dia, na temerosa chegada a La Planche des Belles Filles. Contudo, a invencibilidade de Froome e da Sky caiu aos pés do italiano Fabio Aru e da Astana, quando este retirou a amarela da posse do britânico na chegada a Peyragudes, na 12ª etapa. Já na 9ª etapa, o destemido Aru tinha atacado Froome, no preciso momento em que levantou a mão a indicar um problema mecânico em Mont du Chat, um ataque sem efeito, seguindo-se na 10ª etapa um toque de Froome a Aru, que o britânico reclamou ser acidental.

Depois desta curta polémica, foi a vez de outra polémica estalar no seio da Sky com Mikel Landa, por este não ter esperado por Froome nos momentos finais de Peyragudes, quando este começou a fraquejar. Apesar de todo o trabalho de Landa no decorrer da etapa, aquele preciso momento marcou indelevelmente a esquadra britânica. Mas com a liderança de Aru presa por escassos 6 segundos, Froome depressa recuperou a amarela em Rodez, trocando de lugar com o italiano na geral ao final da 14ª etapa. Apesar do 2º lugar, Aru conta com a importante vitória em La Planche des Belles Filles.

Desde o primeiro dia, o objectivo do colombiano Nairo Quintana sofreu um duro golpe com o abandono do mais importante companheiro da armada Movistar. Alejandro Valverde caiu no contra-relógio, pondo um fim prematuro à sua 10ª participação no Tour, onde já terminou em 3º no pódio de 2015. Além deste revés, a participação no Giro d’Italia demonstrou ser um peso demasiado grande nas pernas de Quintana, provocando críticas até do seu pai Luis Quintana, declarando ao Canal Caracol que a Movistar estaria a queimar Nairo por calendarizar Giro e Tour na mesma temporada.

Nesse mesmo primeiro dia, por queda abandonou também outro espanhol Ion Izagirre, que chegava como líder da Bahrain-Merida. Mas a maior polémica surgiu ao quarto dia, com a expulsão do campeão do mundo Peter Sagan (Bora-hansgrohe), por alegada cotovelada a Mark Cavendish (Dimension Data), que também não tomaria a partida no dia seguinte, fruto da queda sofrida. O que começou por ser uma sanção de penalização de tempo e de pontos para a camisola verde, terminou na discutível expulsão do rosto mais mediático do ciclismo internacional. Se por um lado, as imagens aéreas transpareceram uma má acção de Sagan, já as imagens frontais colocaram em dúvida as certezas iniciais.

Por falar em polémicas, ao final da 12ª etapa regressaram as penalizações polémicas, desta feita para o colombiano Rigoberto Urán (Cannondale-Drapac) e George Bennett (LottoNL-Jumbo), por abastecimento indevido nos quilómetros finais da jornada. Contudo, esta penalização seria retirada à partida para a etapa seguinte, coincidência ou não após um vídeo mostrar a mesma acção praticada pelo francês Romain Bardet (AG2R La Mondiale), o vencedor do dia. Como escreveu o jornalista da Cadena Ser no Tour, Borja Cuadrado: “Num 14 de Julho é mais fácil retirar uma sanção a Urán do que sancionar Bardet”.

Por falar em Rigoberto Urán, o colombiano surgiu renascido neste Tour, estando na frente de batalha não só pela geral como também por etapas. Em Chambéry agarrou o triunfo da 9ª etapa, encontrando-se no Top 5 da geral de um Tour que nunca conseguiu fechar no topo, tendo sim fechado por duas vezes em 2º lugar o Giro d’Italia [2013 e 2014].

A referida 9ª etapa varreu nomes importantes para fora do pelotão do Tour. Vista como a etapa rainha, não foram as 7 subidas das contagens de montanha que despedaçaram o pelotão, mas as suas descidas. Para além de alguns sprinters, Geraint Thomas (Sky) e Richie Porte (BMC) disseram adeus ao Tour, deixando o primeiro a Sky sem o leal escudeiro de Froome e o segundo deixando a BMC sem o líder para a geral. Na etapa seguinte, foi a vez da equipa BORA-hansgrohe ficar sem Rafal Majka, que não conseguiu tomar a partida. E na 13ª etapa foi a vez de Aru perder o companheiro Jakob Fuglsang, que não resistiu a duas fracturas que levava da etapa anterior.

Se falamos do Tour, é obrigatório buscar os heróis franceses e nesta edição há um nome que reluz novamente no coração dos franceses: Romain Bardet. Desde que subiu a profissional em 2012, iniciou a sua aventura no Tour em 2013, competindo todos os anos numa importante ascensão: 15º, 6º, 9º e 2º foram os lugares na geral, tendo ganho uma etapa nas edições de 2015, 2016 e agora em 2017, na chegada a Peyragudes. Actualmente em 3º da geral, cresce a esperança em França de ver um francês conquistar a Grande Boucle, atrevendo-nos a dizer que não é só em França que essa esperança reside, já que o ciclista de 26 anos tem conseguido cativar público além-fronteiras pela qualidade das suas performances.

Por falar em figuras heróicas nos seus países, chegamos a Alberto Contador. Na renovada Trek-Segafredo, passados 10 anos da sua primeira conquista do Tour, esta 10ª participação tem sido de altos e baixos, não deixando de ser um dos protagonistas da história que ainda falta conhecer o final. A tal etapa de Chambéry distanciou-o a pouco mais de 5 minutos da amarela, na 12ª posição. As várias quedas sofridas pareceram abalar o forte psicológico que Contador sempre demonstrou ao longo dos anos. Como o próprio afirmou, as pernas não lhe obedeciam e nesse dia o sofrimento foi visível, embora nunca baixando os braços.

Fazendo uso da sua famosa expressão, ‘Querer é poder’, o Pistoleiro quis e pôde dar um murro na mesa no Dia da Bastilha, atacando a etapa e provocando o contra-ataque e resposta de outras figuras como Quintana ou Landa. O espectáculo revelou a vontade de nunca baixar os braços, terminando em 3º no sprint pela meta e reentrando no Top 10 no Dia da Bastilha em que a vitória pertenceu ao francês Warren Barguil (Team Sunweb), líder da montanha. Longe da camisola amarela, Contador não deixa de ser aquele ciclista que rompe com a monotonia das jornadas, presenteando o público com o seu estilo e classe inconfundíveis em cima da bicicleta. A sua garra valeu-lhe o prémio da combatividade na 13ª etapa entre Blagnac e Rodez.

No que toca à representação portuguesa, Tiago Machado (Katusha-Alpecin) tem-se destacado pelo trabalho inesgotável na frente do pelotão em prol do seu líder Alexander Kristoff. Um trabalho criticado por uns, louvado por outros, pela razão do norueguês ainda não ter conseguido rematar esse trabalho com a tão desejada vitória ao sprint. Mas deixamos a questão... Pode um ciclista ser criticado pelo trabalho que realiza e que lhe é pedido pelos seus superiores? Ou deve-se felicitar pela incondicional lealdade à equipa, aos colegas, e por conseguir fazer aquilo para que foi chamado pela sua qualidade e potencialidade? Fazemos nossas as palavras de Luis Pasamontes, ex-ciclista profissional da Movistar: “Polémicas à parte, Tiago Machado está a fazer um trabalho louvável estes dias em prol de Kristoff. O meu gregário Tour de hoje é o português”, escreveu no Twitter no dia 4 de Julho.

Não podíamos terminar sem falar nos sprints, pois se existe um culpado pelas não vitórias de Kristoff, o maior responsável é Marcel Kittel (Quick-Step Floors), que declaradamente demonstrou ser o mais forte neste Tour ao conquistar 5 chegadas ao sprint e comandar a camisola verde dos pontos.

Depois de arrancar na Alemanha, passar pela Bélgica e entrar definitivamente em solo francês, o 104º Tour de France deixou-nos à entrada da terceira e decisiva semana nos Alpes com a dúvida de quem irá vencer este ano: Froome o favorito, Aru o destemido, Bardet a esperança, Urán o renascido.

Top 10 à entrada da última semana do Tour de France:
1º Christopher Froome (GBr) Team Sky
2º Fabio Aru (Ita) Astana +18s
3º Romain Bardet (Fra) AG2R La Mondiale +23s
4º Rigoberto Urán (Col) Cannondale-Drapac +29s
5º Daniel Martin (Irl) Quick-Step Floors +1:12s
6º Mikel Landa (Esp) Team Sky +1:17s
7º Simon Yates (GBr) Orica-Scott +2:02s
8º Louis Meintjes (RSA) UAE Team Emirates +5:09s
9º Alberto Contador (Esp) Trek-Segafredo +5:37s
10º Damiano Caruso (Ita) BMC +6:05s

1 comentário:

  1. Aru na próxima semana vai ter um dia mau.o mesmo vai acontece a Daniel martin e quanto a Uran é candidato a 2º se a ag2r nao atacar a serio quarta e quinta.hoje podiam ter resolvido meio problema,mas nao o fizeram.

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