Um dia no estágio Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade


Em exclusivo para o Cycling & Thoughts, o Sport Ciclismo S. João de Ver abriu as portas do estágio da equipa de clube sub-23 Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade rumo à temporada de 2016.

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Presidido por Fernando Vasco Costa, o clube nasceu em 1995 e abarca todas as camadas etárias de formação, nomeadamente escolas, cadetes, juniores até ao último reduto de aprendizagem em sub-23. O director desportivo Joaquim Andrade é o máximo responsável pela equipa deste último escalão e recebeu-nos juntamente com os jovens ciclistas no Nova Cruz Hotel, centro de concentração para os trabalhos de preparação à presente temporada.

Joaquim Andrade, ex-ciclista profissional e detentor do recorde do Guinness em número de presenças na Volta a Portugal [total de 21], é dono de uma vasta experiência na formação de jovens corredores. Pelo segundo ano consecutivo em S. João de Ver, o também presidente da APCP – Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais conta em 2016 com a continuidade de Augusto Vitorino (21 anos), João Santos (20), João Silva (20), Marcelo Vieira (19) e Venceslau Fernandes (20). Da equipa júnior sobem António Rocha (18) e Tiago Santos (19), entrando no grupo os novos rostos de André Bessa (21), Francisco Campos (18), Miguel Amorim (20) e Pedro Preto (18). O novo ano traz ainda a novidade do clube abrir as portas ao Paraciclismo, através dos pedais de Ricardo Gomes (31).


Nos primeiros dias de estágio estão presentes sete dos onze ciclistas que compõem a equipa sub-23 na sua totalidade, facto que se deve à conciliação do desporto com os estudos, integrando posteriormente os trabalhos ao longo da semana. Esta é uma preocupação salientada por Joaquim Andrade, para quem a conciliação das duas actividades não interfere de modo algum na evolução dos ciclistas: “Os sub-23 têm tido uma evolução bastante positiva. Alguns ciclistas têm o tempo bastante ocupado, porque estão nas suas actividades académicas, mas conseguimos conciliar. Havendo dedicação e gosto pela modalidade, tudo se consegue. Temos é que adequar as coisas consoante a actividade de cada um.”

Antes de dar início às pedaladas na estrada, os trabalhos começam cedo com a meticulosa preparação do abastecimento para que nada falte aos jovens atletas em mais um dia de treino. Pelas mãos do massagista Paulo Vieira, ex-ciclista profissional, passa todo esse trabalho, enquanto as bicicletas vão sendo cuidadosamente preparadas pelo mecânico da equipa Carlos Pinho, ex-ciclista profissional e rei da montanha da Volta a Portugal. Este ano, a equipa conta com uma nova marca nas máquinas de competição, a BH modelo Quartz, através do novo patrocínio da loja Bicicletas Andrade. Para Joaquim Andrade, “Foi uma alegria voltar a correr com BH, porque na Maia já corri com essas bicicletas e gostei bastante. Para mim, é a melhor bicicleta do momento. De todas as formas, estamos agradecidos ao nosso último patrocinador KTM e a todos os anteriores. Mas, quer queiramos quer não, há sempre uma ligação às marcas que marcaram a nossa carreira e a BH é uma delas.”




Sem descurar nenhum detalhe, Joaquim Andrade dá as últimas instruções aos seus pupilos antes de rumar a mais um treino desta que é a sua segunda temporada no comando da Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade. Sobre a sua ligação a este projecto, “O balanço é positivo. Quando cheguei, fiquei bastante surpreendido. Já sabia que esta equipa trabalhava bem, mas as condições são ainda superiores àquilo que eu imaginava. Foi um ano positivo com os sub-23, que é o escalão do qual estou encarregue. No início do ano, constatei que tinha uma equipa onde a maioria dos corredores eram corredores que as outras equipas não quiseram, mas no final do ano todos andaram atrás deles, sinal de que fizemos um bom trabalho. Isso é o que me dá mais satisfação no projecto de sub-23, ajudar a construir ciclistas, ajudar a que eles possam evoluir como ciclistas.”

Perspicaz na observação dos jovens talentos, ano após ano Joaquim Andrade vê sair das suas mãos ciclistas a quem ninguém prestava atenção, mas após trabalharem consigo e mostrarem as reais capacidades são prontamente chamados por outras equipas. Joaquim vê os dois lados da questão: “Por um lado, custa um pouco. Por outro, também é motivador. Acima de tudo, fico satisfeito e sossegado quando sinto que estão entregues em boas mãos, porque sei que podem continuar a progredir. Pena é quando sentimos que podemos perder definitivamente um atleta, que poderia vir a ser um bom ciclista. Felizmente, a maioria deles tem-se dado bem.”

O relógio marca 10h40m às primeiras pedaladas em Santa Maria da Feira. Pela frente, o pequeno pelotão enfrenta 110 km passando por Ovar, Angeja, Albergaria-a-Velha, Ribeira de Fráguas e o regresso ao Nova Cruz Hotel. O ponto mais duro do treino são os 36 minutos despendidos na subida de 10,5 km, nada que os jovens não enfrentem com a garra de sempre. Neste estágio prepara-se o início da competição, que se corre já no próximo dia 28 na Volta à Maia, 1ª prova da Taça de Portugal Sub-23. Além do treino na estrada, Joaquim Andrade está atento a toda a envolvência inerente ao crescimento dos jovens corredores, revelando que o trabalho psicológico é tão importante como o físico: “Por mais que queiramos, neste escalão de sub-23 praticamente não existem vitórias, mas sim lugares de honra. Quando chamamos vitória, é uma vitória no escalão sub-23 onde os corredores chegam muitas vezes no meio do pelotão e é difícil lidar com isso. A maioria deles vem do escalão de juniores, onde levantam os braços e vão ao pódio como vencedores. Aqui passam a ter um papel secundário e é muito difícil lidar com isso. Por vezes, a própria família ou os amigos vão ver uma prova e dão uma piada ou outra, que eles não conseguem superar e o importante é ajudá-los a que possam superar esses momentos difíceis. Aí vemos o crescimento deles.”




Ao longo do treino, Joaquim estuda cuidadosamente o posicionamento dos seus pupilos, a forma como interagem entre si e o modo como abordam as subidas e descidas do terreno. Todos os pormenores vão sendo afinados com vista aos objectivos da temporada, que se aproxima a pedaladas largas: “Uma vez mais, vamos tentar estar bem na maioria das provas. Claro, a Volta às Terras de Santa Maria é sempre um grande objectivo, porque é a prova da nossa terra, mas na conversa que tenho com todos eles faço ver que neste escalão não se fazem picos de forma. Eles estão a aprender a ser ciclista e para evoluir têm de ter um trabalho constante. Não se pode planear a época para uma ou duas corridas, não faz o mínimo sentido. Fazendo o trabalho em condições e podendo ter um pouco de sorte, penso que podem estar bem ao longo do ano. Alguns ciclistas podem passar por melhores ou piores momentos, mas teremos sempre alguém para estar entre os melhores ou o mais perto possível dos melhores nas competições.”

Como vem sendo hábito, para além do calendário nacional a equipa tem programada a presença em competições no estrangeiro, nomeadamente em Espanha. “Temos pelo menos três provas internacionais, por etapas, e estamos à procura de mais algumas. Não podemos ter em demasia, porque senão corre-se o risco de alguns sub-23 correrem mais do que os corredores profissionais. O nosso calendário acaba por ser extenso, alguns dos nossos ciclistas mantêm a competição na pista, o que é importante para eles, e temos de ter um pouco de atenção a isso. A equipa não é muito extensa e não podemos ir a todas as provas, senão corre-se o risco de correrem em demasia para a idade que têm.”

O fim do treino chega às 14h30, mas longe está o fim de todo o trabalho por trás das pedaladas na estrada. Após o lanche preparado por Paulo Vieira, um a um os jovens corredores passam pelas suas mãos na importante recuperação do corpo para os próximos dias. Enquanto isso, Joaquim Andrade visita alguns patrocinadores, medindo o pulso à preparação do material que os acompanhará ao longo de mais um ano na estrada. Todo este trabalho por trás dos pedais revela-se crucial no desenvolvimento e desempenho de cada jovem na estrada.




Nas curtas entrevistas realizadas aos jovens da Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade, presentes no início do estágio, quisemos conhecer as suas características enquanto ciclistas, os objectivos para 2016, a sua corrida de sonho e a que mais os marcou.

João Silva destaca-se como “rolador e contra-relogista”, tendo como objectivos da temporada “Em primeiro lugar, ajudar a equipa nos objectivos colectivos. Pessoalmente, o contra-relógio do Campeonato Nacional e estar a um bom nível na nossa Volta [Volta às Terras de Santa Maria] e na Volta a Portugal do Futuro.” A corrida que mais o marcou “Foi o Campeonato Nacional de contra-relógio, que ganhei [em 2013]. Era o meu objectivo dessa temporada e foi marcante porque andava atrás desse Nacional há uns anos e naquele ano consegui.” Quanto à corrida de sonho, “Gostava de voltar a fazer Paris-Roubaix, é a corrida que mais gostei até hoje. É muito dura e requer muita preparação, tanto física como psicológica.” João relembra ainda a passagem pela equipa continental Efapel em 2014, subindo directamente de uma equipa júnior para uma profissional: “Foi um pouco prematuro, mas ao mesmo tempo foi bom. Prematuro no sentido de psicologicamente ainda precisar de saber mais o que é o ciclismo profissional, mas também tirei coisas boas... aprendi mais como posicionar-me no pelotão. Mas não me desmotivou quando tive de voltar a uma equipa de clube. Até voltei mais motivado, com vontade de trabalhar para conseguir evoluir, que é o nosso objectivo neste escalão.”

Miguel Amorim chega à equipa depois da passagem por França no ano transacto: “Sempre quis pista e estive na equipa US Créteil, uma das melhores do mundo com vários campeões do mundo. Mas não foi bem aquilo que eu estava à espera e na pista é preciso ter um excelente suporte. Cheguei a um ponto em que precisei mudar de ares, quis mudar de rumo e foi quando o meu 'chefe' Andrade falou comigo. Tive mais propostas além desta equipa, nomeadamente em França, mas pesou o facto de estar perto da família, estar no país e confiar no Andrade, um senhor com mais de 20 Voltas a Portugal e que tem muito para ensinar. Gosto da equipa, quero crescer e penso que aqui tenho tudo para dar o salto.” Miguel vê-se como “rolador e sprinter. Esta temporada é o primeiro ano que me vou dedicar à estrada. Não tenho nenhum objectivo em concreto, mas pretendo fazer uma boa época. Tenho excelentes pessoas a trabalhar comigo e espero que as coisas corram bem.” Para além da prova de pista Revolution Series em Manchester, a corrida que mais o marcou foi “A Volta a Galiza, no ano passado. Foi uma corrida que não estava à espera de fazer, tinha integrado esta equipa nem há 24 horas e todos trabalharam para mim, o que me marcou muito.” Quanto à corrida de sonho, “Sem dúvida, Paris-Roubaix.”

Venceslau Fernandes vê-se como “Razoável nos contra-relógios e subo bem. Os objectivos para a temporada são os que tenho planeado com o meu treinador, ajudar a equipa tendo mais em conta a Volta a Portugal [do Futuro], a Volta às Terras de Santa Maria e provas em que estejam só sub-23.” A corrida mais marcante “Foi a participação no Campeonato da Europa de Juniores, uma autêntica loucura, mas uma grande experiência.” Quanto à corrida de sonho “A Volta a França. A nível nacional, a Volta a Portugal dos profissionais.” Confessa-nos ainda não sentir qualquer pressão por ser filho do vencedor da Volta de 1984, Venceslau Fernandes: “O meu pai é o meu pai, a minha irmã [Vanessa Fernandes] é a minha irmã e eu sou eu. Não há que ter pressão nenhuma sobre isso.”

Augusto Vitorino destaca-se como “Rolador e contra-relogista”. Para a temporada, pretende “Conseguir bons resultados em geral. Como é o último ano de sub-23, gostava de fazer uma época engraçada, que englobe todas as corridas para conseguir ter algumas perspectivas de futuro no próximo ano.” A corrida que mais o marcou foi “O Nacional de Juniores [2012], em Santa Maria da Feira, quando me sagrei campeão de contra-relógio. Foi algo especial, ainda me lembro perfeitamente como se fosse hoje.” A corrida de sonho é “A Volta a Portugal dos profissionais”.

João Santos tem um passado ligado a outra vertente do ciclismo: “Iniciei-me no BTT, consegui obter bons resultados numa modalidade de que gosto bastante e continuo a praticar. A convite do Joaquim Andrade vim para a estrada. Podemos dizer que foi uma aposta dele, que sempre me acompanhou e estou-lhe grato. Aos poucos estou a conseguir adquirir mais experiência e as características de um ciclista de estrada. Entrei para a estrada logo no meu primeiro ano de sub-23 e é completamente diferente de BTT, que é um desporto individual ao contrário da estrada onde temos de acompanhar o ritmo que nos é imposto. Se ficarmos para trás, praticamente acabou a corrida e andar em pelotão tem muito que se lhe diga… a velocidade, o contacto físico. Vamos ver o que dá. Mas estou a gostar.” Por essa razão, afirma “Ainda não estou muito definido. Penso que me dou bem a subir, esse será o meu ponto forte. Os objectivos da temporada passam por conseguir realizar os objectivos colectivos, estar sempre bem nos momentos importantes da época e ajudar a equipa no melhor que puder.” O que mais o marcou até hoje foi “A participação na Volta ao Alentejo o ano passado. Foi uma boa corrida, o nível dos atletas presentes era elevado, o que é bastante motivador para nós.” Revela que a corrida de sonho é “A Volta a Portugal. É sempre aquela prova rainha, mas vamos passo a passo e não criar grandes expectativas.”

André Bessa volta a trabalhar sob o comando de Joaquim Andrade: “Estive dois anos com o Joaquim [na Maia], depois tive um de interregno, mas este ano volto mais uma vez. Depois de tudo o que aconteceu o ano passado, quero ter um pouco de estabilidade, saber com o que posso contar e tentar que isso sejam bases para um bom futuro.” Quanto às suas características, “Ainda estou a descobri-las, não tenho algo que me defina. Depois de dois anos a tentar aguentar-me nas provas, este ano vou ver onde posso render realmente. Quero desfrutar um bocado, ser feliz na bicicleta e esquecer todos os azares e problemas de saúde do ano passado.” O que mais o marcou até hoje, “Apesar de ter tido algumas vitórias nos escalões de formação, foi perder o Campeonato Nacional de Juniores no risco de meta, porque fez-me ver a parte pior do ciclismo.” Quanto à corrida de sonho, “Um dia gostava de fazer o Tour de Flandres ou Paris-Roubaix.”

Marcelo Vieira refere que “Na nossa idade temos de ser um pouco de tudo, mas nas provas que tenho vindo a fazer destaco-me a rolar e no contra-relógio.” Os objectivos da temporada passam por “Ajudar a equipa e fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tal.” Revela-nos a clássica Paris-Roubaix como a sua corrida de sonho e a que mais o marcou foi “O contra-relógio de cadetes de primeiro ano, em que eu fiz segundo lugar.” Marcelo tem integrado os trabalhos da Selecção Nacional de Pista e para ele “A Selecção é um sítio onde tenho aprendido muito, tenho trabalhado com atletas de nível, como os irmão Oliveira, e o Seleccionador mostra-nos que estamos em boas mãos.”

Ricardo Gomes é a grande novidade do paraciclismo em S. João de Ver. Caracteriza-se por ser “Rolador, julgo que a rolar me defendo melhor do que a subir.” Para a temporada, “Os objectivos são sempre os mesmos, trabalho diariamente para alcançar novas metas, nomeadamente ser Campeão Nacional.” Entre os momentos mais marcantes, destaca “As conquistas das provas nacionais, nos clubes que representei anteriormente, e este ano a pista, pois sagrei-me por duas vezes campeão nacional a correr com as cores da minha terra, a Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade.” Quanto aos sonhos a cumprir, “Gostava de vencer a 1ª prova da Taça de Portugal [de Paraciclismo], que se vai realizar aqui em Santa Maria da Feira, pois era especial ganhar em casa. Também gostava de ser campeão nacional de estrada, para juntar aos títulos que já conquistei em BTT e pista, e fazer provas por etapas, um desafio diferente. Quanto a provas internacionais, tenho o sonho de representar Portugal no estrangeiro.”

Moreira Congelados-Feira-Bicicletas Andrade
Bicicletas BH
Director Desportivo Joaquim Andrade
André Bessa (07/05/1994 Anicolor)
António Rocha (08/04/1997 Moreira Congelados-Feira-KTM júnior)
Augusto Vitorino (18/06/1994)
Francisco Campos (10/10/1997 Silva & Vinha-Adrap-Sentir Penafiel júnior)
João Santos (29/04/1995)
João Silva (14/04/1995)
Marcelo Vieira (18/04/1996)
Miguel Amorim (15/11/1995 US Créteil)
Pedro Preto (31/03/1997 Bairrada júnior)
Tiago Santos (06/02/1997 Moreira Congelados-Feira-KTM júnior)
Venceslau Fernandes (24/01/1996)
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Ricardo Gomes –Paraciclista (23/08/1984)


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